Destruir e Construir: Soundscapes #1
Num dia destruíram-se paisagens, que foram redesenhadas no dia a seguir. É a forma mais justa de falar da primeira sessão do Soundscapes organizado pela ArtRites, em Coimbra. Enquanto que, no primeiro dia, os presentes no Via Club estiveram sujeitos a um peso demolidor, ainda que inegavelmente ambiental, foi no segundo que o Post-Rock vingou, com as suas guitarradas em camadas de efeitos e de paisagens. É certo: o nome do evento que reuniu, Aspen, Löbo, Alice in Wonderland Syndrome, The Allstar Project, Katabatic e La Flag foi bem escolhido.
9 de Outubro
A primeira fase da reconstrução foi inegavelmente marcada pela actuação dos Löbo, cada vez mais maduros, com actuação cada vez mais intensas e com muita entrega. Algo que, na verdade, se aplica igualmente aos Alice in Wonderland Syndrome. Mas vamos por partes.
Os primeiros acordes foram mesmo dos locais, Alice in Wonderland Syndrome, que começaram lentamente, com músicas arrastadas e carregadas de distorção – uma fórmula realmente mais pesada e desenvolta do que da primeira vez que o Ponto Alternativo os viu – e que, discretamente, entraram no Stoner lento que os caracteriza. Deixando para trás baterias que facilmente podem lembrar os Earth (principalmente devido ao facto de ambas as bateristas serem mulheres e de, por causa dos andamentos muito lentos, terem de marcar os tempos no ar) e quase que, atrevo-me, acelerando as músicas, desenharam os anos 70 e os riffs à Black Sabbath com um à-vontade que reflecte a rodagem que já começam a acumular. Foi peso suficiente para abrir as hostilidades para a sessão de demolição que os Löbo protagonizaram.
O concerto começou, claro, com a faixa de abertura do EP Alma, Aqui em baixo a alma mede-se com mãos cheias de pedras, e percorreu mais duas músicas do EP (fugindo apenas a Carne e Sombra, uma música introdutória). É o início mais demolidor possível e teria sido realmente mais eficaz se o som do Via Club assim o permitisse. A verdade é que a entrega da banda foi total até ao último minuto da sua actuação – sem exagero nenhum – que terminou com muito peso e muito lenta, com uma adaptação de Por fim só. Livre, que levou toda a gente a curvar a espinha numa grande coreografia de headbanging em comunhão com os Löbo. Esse foi, aliás, o ponto mais positivo da actuação dos setubalenses: as adaptações das músicas do EP foram bem conseguidas, apesar de mais simples do que seria de esperar, e o alinhamento com que as apresentaram resultou na perfeição, com passagens bem pensadas e combinadas. Foram senhores da primeira noite do Soundscapes #1, apesar de bem acompanhados pelos barcelenses Aspen, no que à atitude diz respeito.
Os Ex-Cosmic Vishnu mostraram uma entrega invejável e inesgotável, deixaram tudo no pequeno estrado em que estavam. Musicalmente, impuseram-se verdadeiramente quando as músicas tinham uma sonoridade mais próxima do Stoner (aquelas guitarras a lembrar Kyuss), terreno em que estão, naturalmente, mais confortáveis, tendo em conta os seus antecedentes. Boas ideias não faltam, mas é nos riffs que os Aspen imperam e isso foi inegável no concerto, que se tornou algo bipolar: os seus momentos Stoner ofuscavam os laivos Post-Rock. Mas reconheça-se mérito nisso, porque foi uma actuação com força suficiente para destruir completamente o que restava de paisagens.
10 de Outubro
Este foi um dia menos votado aos experimentalismos e mais dado a palavras. Fora os Katabatic, as bandas falaram, apresentaram-se a si e às suas músicas, coisa que não se verificou no dia anterior. Um dado mais curioso do que outra coisa, na verdade, mas que também traduz muito os diferentes ambientes que estas bandas tentam criar. Quando aos experimentalismos, pode-se dizer, em boa verdade, que os avanços que se fez nos ambientes do dia anterior (admitindo que a “destruição é um prazer criativo”) ficaram em suspenso e se jogou pelo seguro: tocou-se Post-Rock, sem sombra de dúvida, com todas as suas características, sem tirar nem pôr. Houve uma tentativa de usar um projector com imagens, mas que pouco acrescentou aos concertos. Jogou-se seguro e bem, porque todos os presentes estavam lá para isso, e em maior número no que no dia anterior, sublinhe-se.
Os La Flag foram os primeiros, numa estreia em todos os sentidos: tocaram em primeiro lugar, pela primeira vez em Coimbra e por aí fora. Tiveram direito a uma estreia em grande: bem recebidos pelo público e com as músicas a correrem-lhes bem, foram uma primeira banda à altura do desafio que os nomes que lhes seguiam, mais sonantes, impunham. Seria impossível não destacar a importância que um dos guitarristas tinha para a dinâmica da música, fazendo praticamente todas as melodias, enquanto os demais mantinham a harmonia, de nota em nota. Onde a noite não foi original, em nada, foi nos finais dos concertos: era o ruído dos delays. Foi para os La Flag e foi para as restantes bandas – esta vontade de atrasar os aplausos foi religiosamente respeitada pelo público.
Os Katabatic, vindos directamente de Madrid depois de uma tour ibérica com Caspian, começaram bem, muito bem, e acabaram por se perder nas repetições. É um nome que, cada vez mais me convenço, merece ser o alvo de atenção que tem sido – convencem-me sempre, e é impossível não o fazerem, na verdade, nos momentos em que as músicas ficam mesmo pesadas, e com a entrega com que se apresentam sempre nos concertos – mas que teme em fazer-lhe jus com algo de verdadeiramente seu. A verdade é que boas ideias não faltam, e as músicas têm inícios de riqueza que depois perdem com pormenores exagerados. Onde os lisboetas ganham, e nesta noite foram reis e senhores nesse aspecto, é precisamente nos ambientes mais pesados, que conseguem inserir nas músicas com muita naturalidade.
Finalmente, tomava o palco a banda mais aguardada da noite – e todos estavam expectantes. Os Allstar Project sabem tirar partido de todas as camadas que três guitarras conseguem criar e provaram-no no último dia dos Soundscapes. Criaram ambientes e insistiram mais na sua intensidade do que no peso da música, algo que agradou a um público muito mais receptivo a isso. Tire-se-lhes o chapéu: eles fazem-no muito bem e cada um executa o seu papel muitíssimo bem. O único pecado que se lhes pode apontar prende-se precisamente com a hesitação que apresentam em querer, realmente, quebrar as barreiras de um género que cada vez mais se vê esgotado. Os rapazes de Leiria aproveitaram para apresentar música novas, que não se mostraram tão eficazes quanto as antigas, que, claro, foram as que saciaram os presentes que tanto aguardaram este regresso.
Foi bom ver Coimbra, ou as poucas pessoas da cidade universitária com cabeça para isso, a aderir a um evento que à partida se faz difícil: dois dias de música instrumental, sem uma letra a que as possas possam associar algo... um ambiente à partida inóspito recebido de braços abertos é algo louvável.
Alice in Wonderland Syndrome Löbo Aspen Mais fotos em breve.
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